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Polilaminina abre caminho para esperança em lesões medulares

Publicada em: 21/02/2026 08:53 -

Substância ajuda regeneração de nervos e inicia testes clínicos no Brasil

 

Uma substância desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) surge como promessa no tratamento de lesões medulares, um problema que atualmente não possui solução capaz de restaurar totalmente os movimentos. Trata-se da polilaminina, derivada da laminina, proteína naturalmente produzida pelo corpo e presente principalmente na placenta. A substância começou a ser estudada há quase três décadas e, em 2026, recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 de estudos clínicos no Brasil.

Como funciona a polilaminina

A polilaminina atua como um suporte para a regeneração de axônios, extensões dos neurônios que se rompem em lesões medulares. Em modelos experimentais, a substância ajudou células nervosas a reconectar-se, funcionando como um “andaime” molecular que guia o crescimento dos axônios. Segundo a professora Tatiana Sampaio, responsável pelas pesquisas na UFRJ, a proteína foi aprimorada em laboratório a partir da laminina extraída de placentas doadas voluntariamente, garantindo que sua estrutura se aproxime da humana. A aplicação ocorre diretamente na medula durante cirurgia, onde a proteína se organiza em rede no local lesionado, promovendo um ambiente favorável à regeneração.

Primeiros testes e resultados promissores

O estudo preliminar conduzido pela UFRJ em parceria com a farmacêutica Cristália envolveu oito pacientes com lesões medulares completas, classificadas como tipo A, as mais graves, com baixa chance de recuperação espontânea. Metade tinha lesões cervicais e metade torácicas. Dois pacientes não sobreviveram, mas os outros seis recuperaram algum controle dos movimentos, resultando em uma taxa de 75% de evolução motora, muito acima dos 15% observados em dados históricos de pacientes com tratamentos convencionais. Um dos pacientes apresentou melhora considerada “extraordinária”, reforçando a perspectiva promissora da polilaminina.

Apesar desses resultados, o estudo foi divulgado como pré-print, sem revisão independente, e ainda não permite afirmar a eficácia definitiva da substância. Sampaio destaca que a reabilitação, incluindo fisioterapia, é fundamental para orientar os axônios regenerados, garantindo que eles reconectem-se corretamente e restaurando funcionalidade.

Uso experimental por liminares

Mesmo sem aprovação para uso comercial, pacientes têm obtido acesso à polilaminina por meio de liminares judiciais. Um caso recente é o da nutricionista Flávia Bueno, que ficou tetraplégica após acidente de mergulho e voltou a mover o braço direito após receber a proteína no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Sampaio alerta que esse tipo de uso é “errado” do ponto de vista científico, por não permitir acompanhamento rigoroso dos efeitos, mas reconhece a dimensão humana das decisões judiciais, especialmente em casos de lesões graves.

Próximos passos e expectativas

A fase 1 do estudo clínico, aprovada pela Anvisa, envolverá cinco pacientes com lesão completa na região torácica, aplicando a polilaminina em até 72 horas após o acidente. A etapa será conduzida pelo Hospital das Clínicas da USP e pela Santa Casa de São Paulo, com apoio da AACD para a reabilitação. Se os resultados forem satisfatórios, a pesquisa avançará para a fase 2, destinada a avaliar a eficácia, e posteriormente para a fase 3, combinando segurança e eficácia em um grupo maior de pacientes.

Segundo a farmacêutica, estima que a fase 1 seja concluída ainda em 2026, com possibilidade de submissão do registro definitivo até 2028, caso todas as etapas sigam o planejamento. Enquanto isso, a comunidade científica e os pacientes mantêm expectativas cautelosas, equilibrando a urgência de tratamento com a necessidade de evidências sólidas.

 

Por Assessoria de Comunicação
Foto Divulgação

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